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Espontaneidade

  Suor discreto. Incomodo da saia. Respira, respira. Está tudo organizado, temas, tempo, slides, microfone. Respira, respira. Você é a próxima, tudo certo? Puxa, como gosto de te ouvir. Posso fazer uma pergunta antes de começar? Claro. Essa pergunta... ela está na minha fala? Não lembro. Saudação. Pequena brincadeira para descontrair. Plateia aprova. Segue o roteiro. Mas, a pergunta. Não consigo responder à pergunta. Respira, respira. Sim, agora consigo responder. Aplausos.   Fantástico! Precisou improvisar, não? Não. Improvisar é não planejar, não saber o que fazer ou falar. O que fiz foi espontâneo. Dentro daquilo que foi preparado algo novo, natural e sincero surgiu para responder a uma pergunta. Não gosto de improvisos, me tira a calma, me afunda em contradições. A espontaneidade faz com que compreenda o que falo, para quem falo e me sinta realizada. Uma rota ajustada para aportar com mais segurança e gratidão. 

Adeus

Esta é uma carta de despedida. Foram trinta e poucos anos de um ciclo vicioso e majestoso não vividos juntos. Essa é a majestade, uma vida não vivida. Amo quem sou hoje. Essa é uma certeza irrefutável. Não mudaria nada em mim. E sou fruto desses trinta e poucos anos não vividos juntos. Não há como dizer que foram dias ruins. Te amo. Intensamente. Com a clareza de trinta e poucos anos atrás. Encontrá-lo foi como voltar no tempo, como se nada estivesse mudado entre nós! Fios de cabelo brancos. Rugas. Corpo decaído. Tudo isso passou sem perceber porque o amor estava ali. No brilho dos olhos, no acelerar do coração, na respiração descompassada. Mudamos. Ah! Como mudamos. Mas a essência não! – você disse. Mudamos sim. E eu gosto de pensar assim. Se o redor desaparecesse. Se fôssemos transportados para um mundo nosso, onde nada nem ninguém estivessem. Se nada mais importasse a não ser nós. Se... Se não existe. É uma desculpa para os fracassados. É a justificativa para quem nã...

Absolvição

Erraste. Sem intenção de errar. Erraste por raiva pela justiça de alguns. Erraste por ciúmes, por não aguentar ser trocada, comparada e não amada. Cometeste um pecado, num mundo de pecadores. Agora aquiete-se menina, terás que pagar pelo seu erro. Não eras tu, a perfeita, querida,   escolhida? Não eras tu, a que chorou por injustiças e medo de encontrar o passado? Agora aquiete-se e reconhece tua culpa. Mas muda. Muda para preservar-te, para sair do foco, sair de cena. Muda por sobrevivência. Quanto ao julgamento, o veredito já foi dado. Agora cumpra-se a pena! Espera passar tua sentença, espera a liberdade. As marcas da reclusão serão eternas. Terás que provar que foi reabilitada, corrigida. E esconder as mágoas e cicatrizes. Passará e dai verás o que ficou. Mas levanta tua cabeça!
"Na minha alma, hoje, também corre um rio, um longo e silencioso rio de lágrimas que meus olhos fiaram uma a uma e que há de ir subindo, subindo sempre, até afogar e submergir na tua profundez sombria a intensidade da minha dor!..."     _Cora Coralina, em trecho do poema "Rio Vermelho", do livro "Villa Boa de Goyaz. São Paulo: Global Editora, 2001, p. 103

Diálogo com a Luz

- Sou grata por minha vida, meus filhos, meu marido, minha saúde. Realmente me envergonho em ter que pedir. - Eu estou aqui... - Estive pensando. Um milagre é aquilo que acontece de extraordinário, algo que a gente acredita que o outro é capaz de realizar por nós mesmo quando não temos mais esperança. - Hum, hum... - Foge a nossa capacidade de entendimento. Você sabe que sou avessa a esses pedidos... tenho vergonha... - Tenha calma... - Mas está difícil. As coisas não estão andando.  Nove meses e nada. Sei que pode haver motivos maiores, que não depende de mim a mudança, mas não posso deixar de lhe falar... - Fale, então. - Pensei uma coisa. Quando eu era pequena queria muito uma copinha (sabe, aquelas cozinhas pequenas para as meninas brincarem de casinha). Bem, minha mãe não tinha dinheiro, mas queria me presentear. Ela retirou o dinheiro da minha poupança e comprou para mim. Não esqueço esse dia. Sou muito grata a minha mãe. - Continue sua ideia. - Ent...

Sinto

Tenho saudade. Um aperto no peito, doído. Sinto falta de um cheiro, de um vento.    Tenho saudade. Um momento etéreo. Sinto falta de vento, um sussurro, um alento.   Tenho saudade. Uma felicidade incontida. Sinto falta de alento, uma mão.   Ah, que saudade.   Não sei ao certo de que, Não entendo como nem porquê. Sinto.     "E é só você que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi."

Observar, crescer e, principalmente, amar...